O clima da Terra está mais desequilibrado do que em qualquer outro momento da história
Clima da Terra está 'mais instável' do que nunca e El Niño pode levar a novos recordes de temperatura, adverte agência da ONU
Mark Poynting
Role,Repórter de Clima da BBC News
O clima da Terra está mais desequilibrado do que em qualquer outro momento da história registrada, alertou a agência meteorológica da Organização das Nações Unidas (ONU).
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) afirma que o planeta está acumulando muito mais energia térmica do que consegue liberar, impulsionado por emissões de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono.
Esse "desequilíbrio energético" recorde aqueceu os oceanos a níveis inéditos no ano passado e continuou a derreter as calotas polares do planeta.
Cientistas temem que o El Niño, uma fase natural de aquecimento prevista para começar no fim deste ano, possa levar a novos recordes de calor.
Em resposta ao relatório, o secretário-geral da ONU, António Guterres, reiterou seu apelo para que os países abandonem os combustíveis fósseis em favor de energias renováveis, a fim de "garantir segurança climática, segurança energética e segurança nacional".
"O planeta Terra está sendo levado além de seus limites. Todos os principais indicadores climáticos estão em alerta vermelho", advertiu, em um discurso em vídeo de tom enfático.
Os últimos 11 anos foram os 11 anos mais quentes já registrados desde 1850, segundo a OMM.
Em 2025, a temperatura média global do ar ficou cerca de 1,43 °C acima dos níveis do período "pré-industrial", antes de os seres humanos começarem a queimar grandes quantidades de combustíveis fósseis.
Um resfriamento temporário provocado pelo fenômeno La Niña fez com que 2025 não fosse tão quente quanto 2024, que foi intensificado pela fase oposta, o El Niño.
Gráfico de linhas mostra a temperatura média global do ar entre 1850 e 2025. Há variações de um ano para outro, mas desde cerca de 1970 a tendência é de alta. Os últimos anos estão muito acima de qualquer nível registrado antes
Ainda assim, o ano passado foi um dos três mais quentes desde o início dos registros.
Muitos cientistas agora acreditam que o aquecimento está se acelerando, embora afirmem que as temperaturas estão, em geral, dentro da faixa das previsões de longo prazo.
E a OMM aponta para uma série de outras evidências que mostram que o clima está mudando mais rapidamente do que já vimos antes.
Talvez a medida mais abrangente seja a quantidade de energia térmica extra que está sendo absorvida pela Terra.
Esse "desequilíbrio energético", que impulsiona a mudança climática, atingiu um novo recorde no ano passado, afirma a OMM.
Embora os cientistas ainda estejam investigando exatamente por que a Terra acumulou tanto calor extra na última década ou mais, eles não têm dúvida de que os gases de efeito estufa que retêm calor, como o dióxido de carbono (CO2), são a causa principal do desequilíbrio.
Segundo a OMM, os níveis de CO2 na atmosfera estão nos maiores patamares do que em pelo menos dois milhões de anos, devido a atividades humanas como a queima de combustíveis fósseis.
Infográfico compara o clima equilibrado do passado com o clima atual, em desequilíbrio. À esquerda, o globo mostra a energia solar que entra e o calor que sai em equilíbrio. À direita, a mesma entrada de energia aparece com menor saída de calor, devido aos gases de efeito estufa. Um gráfico em blocos mostra onde a energia extra se acumula: 91% nos oceanos, 5% na terra, 3% no gelo e 1% na atmosfera. Fonte: IPCC
Parte da energia extra retida por esses gases aquece a atmosfera e a terra, além de derreter o gelo do planeta.
Segundo dados preliminares, as geleiras do mundo tiveram um de seus cinco piores anos já registrados em 2024/25, enquanto o gelo marinho nos dois polos ficou em níveis mínimos ou próximos deles durante a maior parte de 2025.
Mas mais de 90% da energia extra da Terra aquece os oceanos, o que, por sua vez, prejudica a vida marinha, intensifica tempestades e contribui para a elevação do nível do mar.
O calor armazenado nos 2 km superiores do oceano global atingiu um novo recorde no ano passado, afirma a OMM. Nas últimas duas décadas, o aquecimento ocorreu a um ritmo mais de duas vezes superior ao observado no fim do século 20.
"As atividades humanas estão perturbando cada vez mais o equilíbrio natural e viveremos com essas consequências por centenas e milhares de anos", disse Celeste Saulo, secretária-geral da OMM.
O relatório aponta para os impactos atuais do aumento das temperaturas, que ajudam a intensificar diversos tipos de eventos climáticos extremos e favorecem a disseminação de doenças como a dengue.
O sudoeste dos Estados Unidos enfrenta atualmente uma onda de calor recorde para início de temporada, com temperaturas que superaram os 40 °C em alguns locais nos últimos dias — cerca de 10 °C a 15 °C acima da média.
Uma análise rápida realizada na sexta-feira (21/3) por cientistas do grupo World Weather Attribution concluiu que a intensidade do calor teria sido "virtualmente impossível" sem a mudança climática causada pelos humanos.
Os pesquisadores também monitoram de perto o oceano Pacífico, com previsões de longo prazo indicando fortemente que uma fase de aquecimento do El Niño pode se formar na segunda metade de 2026.
Um El Niño, somado ao aquecimento causado pela atividade humana, pode elevar as temperaturas até 2027.
"Se passarmos para El Niño, veremos um aumento da temperatura global novamente, possivelmente atingindo novos recordes", disse John Kennedy, da OMM.
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https://www.bbc.com/portuguese/articles/c0lep03p2yro
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